QUERO IR DE BOMBACHA!
Quando eu bolear a perna e me despedir das verdes coxilhas do meu querido Rio Grande do Sul; quando o Patrão Velho me aquerenciar em outro pago, quero ir vestindo a minha bombacha mais abagualada, dentro da "fatiota" de madeira. Quero a bandeira do Rio Grande como mortalha e no pescoço o meu inseparável maragato, que sempre foi minha identidade de peleador. Peço aos companheiros que, sorrateiramente, sem que o Santo Padre veja, escondam comigo o mango e a minha xerenga, que me acompanharam em muitas farromas, pelejas e entreveros, em bailes e em campo aberto. Vai que do lado de lá eu encontre algum desafeto... E não esqueçam do meu bichará; dizem que por lá o minuano assobia nas orelhas e faz até cusco renguear. A cuia e a bomba de chimarrão não precisam por dentro do caixão. Sempre fui apaisanado e por certo não faltará um vivente que me ofereça uma cuia do doce amargo. Por sobre minhas mãos, unidas em prece, coloquem o meu chapéu tapiado, pois devo chegar até o Patrão Velho, humildemente, de chapéu nas mãos e os joelhos no chão, para agradecer por esta vida em que tive rolando pelos pagos do meu amado Rio Grande do Sul; agradecer pelos carinhos da prenda que me foi dada como companheira e pelejou comigo sem nunca afrouxar o garrão; e pelo filho que se saiu um taura de respeito e por certo sente orgulho deste seu velho pai. Quero também agradecer pelos pores-do-sol que trago na retina e pelos horizontes largos do meu Grande Rio Grande do Sul. E quando eu bolear a perna desta vida e passar para a outra, por certo encontrarei muitos companheiros numa roda de chimarrão, esperando-me para com eles camperear na querência grande do céu!
Ademir Canabarro - um missioneiro